domingo, 24 de abril de 2011

Quando tudo começou

Desde criança, sou movida pela curiosidade. Uma das maiores curiosidades que tive e ainda tenho era quanto à presença de certos documentos afixados em postes, paredes e janelas da cidade de Ouro Preto, Minas Gerais, e onde se podia ler o anúncio de morte de uma pessoa. Nesses documentos, a funerária discriminava o nome dos parentes e o grau de parentesco com o morto, o apelido do morto e de seus parentes, a profissão exercida por ambos os discriminados, o endereço e mesmo o cemitério onde a pessoa seria sepultado, deixando-se inferir a que irmandade religiosa o morto e sua família pertecem . O mais importante era o fato de que o documento era tão conhecido na cidade que imediatamente colado, as pessoas naturalmente iam lê-lo e logo se disseminava a notícia.
Tentei várias vezes escrever sobre o tema mas em vão uma vez que havia até preconceito quanto ao tema fúnebre. Até a oitava série, eu era considerada apenas uma menina curiosa. No curso médio, naquele tempo conhecida como curso de segundo grau, fiz o magistério de primeiro grau e tive que defender tema pedagógico. Ao completar o curso superior em letras, escrevi sobre literatura de cordel, fazendo o recorte sobre como é tratada a mulher nos folhetos.
Escrevi e reescrevi várias vezes o que seria um rascunho de projeto de um mestrado, mas preferi cuidar de meus filhos até chegar a um período em que eles já pudessem cuidar de si.
Propus meu tema à UFMG que não o aceitou porque não havia naquela instituição uma linha de pesquisa que o analisasse. Um pouco desiludida, resolvi fazer o curso de jornalismo onde poderia trabalhar com o aspecto midiático do anúncio funerário que assombrava minha curiosidade.
Então, no terceiro semestre do curso de jornalismo, surgiu-me a grande possibilidade. Surge na UFOP o curso de mestrado em letras direcionado para a área da memória cultural e essa foi a minha grande chance. Apresentei o meu projeto, fiz as provas, participei da entrevista e fui aprovada em décimo lugar. O título pioneiro do meu trabalho de mestrado era " self-image e pertencimento coletivo através da análise de cartas obituárias de Ouro Preto-MG" . O objetivo era detectar a ideia de pertencimento coletivo através da análise semântica dos dados econômicos, sociais, culturais e onomásticos presentes nas cartas.

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